Aqui estou mais uma vez e confesso que diante de tantas coisas que gostaria de discutir fiquei perdido imaginando por onde começar. Mas, para quem me conhece sabe que este é um assunto que muito me preocupa “(in)disciplina”. Muitas vezes passo pelas coordenadoras e pelos professores e a única frase que sai é: Disciplina, disciplina, disciplina, conteúdo e filosofia. Pois é...hoje proponho uma reflexão sobre: DISCIPLINA!
Não são poucas as coisas que tenho lido sobre o assunto e a vontade de compartilhar tudo que a experiência já me proporcionou é muito grande. Aqui com meus pensamentos algumas lembranças me angustiam. Não é raro ter queixa sobre a falta de comportamento de uma sala ou de algumas crianças e estas mesmas pessoas que se queixam são as primeiras a furar a fila do estacionamento, não é raro ter queixas sobre um aluno que falou palavrão perto do filho no intervalo, mas estas mesmas pessoas são as primeiras a xingar o motorista do carro ao lado que está dirigindo com cautela. Não me acostumo com estas atitudes!
A sala de aula é uma continuidade da vida, reflexo do entorno. Ora se a sala de aula é reflexo da sociedade e a sociedade perdeu a noção de disciplina, de ética, de bons modos, como esperar que os jovens tenham comportamento diferente em sala de aula? Então vocês devem estar pensando: Então não há o que fazer! Não há como combater a indisciplina? Há sim! E como há! É imprescindível que lutemos bravamente pela disciplina, não só em sala de aula. Que se faça deste valor um objetivo que temos que perseguir diariamente.
Quero dividir com vocês partes de uma entrevista que li com o psicólogo Lino Macedo intitulada como: Disciplina se ensina!
É possível ensinar disciplina?
Sim. Disciplina é uma competência escolar que as crianças aprendem como qualquer conteúdo. Condição para realizar um trabalho com êxito, é uma matéria interdisciplinar, porque dela dependem todas as outras.
É possível ensinar disciplina pelo exemplo?
Sim. Um erro comum é achar que a falta de disciplina é sempre do outro. Fala-se muito que as crianças de hoje não têm limites. É verdade. Mas nós, adultos, também não temos. Em uma sociedade como a nossa, um dia se almoça de manhã, outro dia de tarde, outro dia enquanto se fala ao celular. Nós é que não temos rotinas para organizar a vida das crianças. Entendemos os motivos da nossa "indisciplina" porque sabemos que para muitas pessoas a regularidade se tornou impossível. Mas, se nós não somos disciplinados, por que esperamos um comportamento regular das crianças, como se fosse uma coisa natural, espontânea, quase herdada? Podemos conquistar o aluno para um projeto de disciplina conseguindo a admiração dele. Em sua origem, a palavra disciplina tem a ver com discípulo. Discípulo é uma pessoa que tem alguém como modelo e se entrega pelo valor que atribui a essa pessoa. Com o tempo, perdeu-se o elemento de referência que havia antigamente. Isso tem de ser novamente conquistado, pouco a pouco, pelos dois lados.
A disciplina que se aprende na escola serve para a vida toda?
A gente tem de pensar a disciplina ao mesmo tempo como fim e como meio. É um fim porque podemos desenvolver atitudes como concentração, responsabilidade, interesse. Essas coisas viram ferramentas pessoais e de trabalho. Disciplina é também um meio, um instrumento sem o qual as coisas não acontecem — ou acontecem fora do prazo ou dos padrões.
A disciplina ajuda a desenvolver a autonomia?
Disciplina é, cada vez mais, autodisciplina. Um exemplo é a lição de casa. Hoje em dia a maioria das famílias não tem um adulto com tempo disponível para fiscalizar o dever. A própria criança aprende a administrar essa tarefa e, se necessário, ela pede socorro. A autonomia é uma conquista, um aprendizado complexo e longo pelo qual as crianças desenvolvem a disciplina para dar conta de suas tarefas.
O que é ser uma pessoa disciplinada?
Ser disciplinado significa ter um comportamento subordinado a regras. Mas o que é regra? Algo que se constrói por consentimento. É como em um jogo. As regras são arbitrárias, mas a criança aceita porque gosta de jogar. Sem regra, não há jogo. Para definir regras, usamos o recurso da democracia. A classe toda discute, sob a condição de que todos aceitem o que a maioria decidir. O problema é que a minoria pode se recusar a cumprir. Deve-se combinar previamente que a não observação das regras implicará punições ou perdas. Um dos motivos que nos levam a aderir à disciplina são as consequências de não nos entregarmos a ela. Convencer é diferente de impor.
Todas as obrigações devem ser submetidas a discussão?
Não. Por exemplo: muitos pais perguntam aos filhos se eles querem comer. Eu não acho que seja uma boa pergunta. Porque, se o filho disser que não quer comer, como fica? A melhor pergunta é o que ele quer comer, dando opções. Dar autonomia não significa abrir mão do seu papel de líder e de responsável por certas coisas. Se você submeter tudo à opinião da maioria das crianças, a curto prazo elas vão decidir pelo pior. Primeiro, tenta-se convencer. O último recurso é impor. É errado tentar tratar como homogêneo algo desigual como a relação adulto e criança ou a relação professor e aluno.
As crianças conseguem entender a importância da disciplina?
Em 1930 Piaget escreveu um livro importante, O Julgamento Moral da Criança, e mostrou que mesmo as bem pequenas já têm valores como o gosto pelas regras, pela disciplina, pelo fazer bem-feito e por se entregar a uma tarefa coletiva. Só que o adulto não percebe. Piaget provou que é possível ver isso usando o exemplo das brincadeiras. A própria garotada se auto-regula e se submete a regras coletivas. Piaget analisou como o respeito entre iguais promove o desenvolvimento da criança. Muitos pais e professores sabem compartilhar com ela a necessidade de uma regra de forma que a criança até reclama, mas aceita, entendendo que é o melhor.
Se por um lado comecei falando sobre minhas angústias, encerro falando sobre minha esperança...Esperança que através de nossa equipe consigamos mudar um pouquinho o rumo de nossas crianças e jovens e que estes, um dia, possam fazer a diferença nesta sociedade e em nosso mundo tão necessitado de verdadeiras transformações. Que estas mudanças não busquem o novo, mas o correto que há dentro de todos nós, a verdadeira essência!
E vamos lá...disciplina se ensina! Um ano abençoado a todos!
Um abraço fraternal
Luiz Beraldo